O direito a morar bem

O que você entende por arquitetura? Talvez você pense em uma ciência que busque deixar os ambientes e as construções mais bonitas. Ou você pode pensar que ela serve para construir espaços mais funcionais, onde as atividades desempenhadas naquele espaço se desenvolverão com melhor fluidez e sem conflitos. Ou ainda, que sirva para projetar construções e ambientes que tenham a cara de seus donos. Enfim, são tantas as atribuições da arquitetura que eu não conseguiria listar aqui e por isso afirmo que todos os pontos levantados anteriormente estão corretos.

Nós entendemos arquitetura como a ciência que possibilita ter um espaço, ou uma construção, alinhado com nossas necessidades e desejos. É o abrigo que te permite morar bem, trabalhar bem, estudar bem, entre tantas outras atividades. É a arte que estimula o seu bem estar a partir do ambiente construído. Talvez esta última frase resuma perfeitamente o meu pensamento. A arquitetura faz o espaço trabalhar para te fazer bem!

E é neste sentido que te convidamos a uma reflexão neste texto. É sabido e notório que, no Brasil, o acesso a serviços de arquitetura é quase que exclusivo a classes sociais mais abastadas. Uma pesquisa do CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo) e Datafolha de 2015, atestou que apenas 7% da população economicamente ativa já contratou serviços de arquitetura. Além disso, a mesma pesquisa confirmou que a maior parte dos contratantes pertencem às classes A e B. Ou seja, todos os benefícios descritos nos primeiros parágrafos deste texto estão praticamente restritos a uma minoria numeral de nossa população assim como estão inalcançáveis para os brasileiros e brasileiras mais pobres.

Quando falamos de arquitetura como bem estar estamos falando de saúde, de arquitetura como ferramenta preventiva de doenças físicas e mentais. E todos nós costumamos reconhecer a importância do acesso universal a saúde, mas aceitamos sem questionar, ou pelo menos sem tentar combater, que a arquitetura esteja sendo acessada por uma minoria numeral.

O direito a morar bem deveria ser uma premissa inegociável. A imensa maioria de nossa população mora em algum lugar e boa parte dessas casas apresenta baixa qualidade de conforto ambiental, algumas chegando a ser insalubres. A arquitetura pode, e deve, contribuir para uma melhora desses lares, tornando-os agradáveis e alinhados com as necessidades de seus moradores.

Com projetos simples, podemos interferir positivamente nas condições de iluminação e climatização dos ambientes, evitar odores indesejáveis, melhorar acústica em relação aos vizinhos, estudar a distribuição dos ambientes e móveis de acordo com as necessidades da família, desenvolver espaços ergonômicos que não comprometam a saúde física da família, trabalhar os acabamentos das casas para que os moradores se identifiquem visualmente com aquele espaço, entre tantas outras coisas.

Soluções simples e pontuais podem provocar grande impacto em lugares tão desprovidos de qualidade de ambiente. Nem sempre será possível executar todas as melhorias necessárias ao espaço, mas o atendimento parcial destas demandas já gera resultados muito significativos.

Assim, deixamos aqui o convite a uma reflexão. Como nós, arquitetos e arquitetas, podemos trabalhar para expandir o acesso a nossos serviços e assim popularizar a arquitetura? Inclusive, se pararmos para pensar apenas pela ótica de mercado, podemos perceber que estamos diante de um grande público que precisa severamente de nossa expertise. E mesmo assim, continuamos insistindo em disputar a mesma minúscula fatia de mercado, se desdobrando para vencer concorrências e aceitando regras do jogo que nem sempre concordamos.

É chegada a hora de levar a arquitetura para outros lugares! Sem abandonar esse minoritário público já cativo que costuma contratar nossos serviços, mas levar para outras tantas pessoas que precisam verdadeiramente de nosso conhecimento técnico. É preciso que saiamos da casa grande e cheguemos nas menores casas porque só assim estaremos cumprindo a verdadeira função social da arquitetura.

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