Em que cidade você se encaixa?

A gente está acostumado a ouvir falar de diferentes tipos de cidades, né? A grande, a pequena, a metrópole, a global, etc. Na verdade, cidade é um termo tão amplo que se faz necessário explicitar o sentido que estamos adotando para esta palavra neste texto. Utilizaremos aqui a concepção de urbano do Milton Santos, que se refere ao abstrato, ao imaterial, a tudo de intangível que caracteriza um determinado espaço físico. É neste sentido que perguntamos em que cidade você se encaixa. Na cidade formal, onde, na teoria, tudo acontece como se espera? Ou na informal, onde a privação e o improviso imperam?

Quando falamos dessa dualidade, cidade formal e cidade informal, enxergamos dois tipos de entidades que não se comunicam, que estão em lugares opostos, onde o que abunda na primeira falta na segunda. De fato, em diversos aspectos, uma é a antítese da outra. Na cidade formal é comum encontrarmos vias nomeadas, cep’s, calçadas, saneamento, abastecimento de água, transporte público na porta, iluminação pública adequada. Falando agora da porta pra dentro, também é comum encontrar em casas da cidade formal soluções como água encanada, descargas nos banheiros, instalações elétricas seguras, janelas que provém iluminação e ventilação, entre outras dádivas.

A cidade informal é privada dessas benesses de uma maneira intencional, de acordo com a opinião deste que vos escreve. Há uma disposição, ou no mínimo um esquecimento propositado, em manter as famílias destes locais numa invisibilidade, como que para fingir que não existe e, portanto, não há problemas a resolver. As cidades informais são excluídas da relação urbana, no sentido do Milton Santos, com outras localidades do seu entorno e são vistas como indesejáveis, ignoráveis e desimportantes. Esquecem-se que nelas vive boa parte da população de uma país subdesenvolvido como o nosso. Em estados como Pernambuco e Rio de Janeiro, mais de 10% da população mora em um aglomerado subnormal, as comunidades ou favelas.

Em uma cidade como Recife, essa separação se dá mesmo em territórios contíguos. É comum termos um bairro nobre ao lado de uma comunidade, ou ZEIS, muitas vezes separados apenas por uma via, como vemos com a avenida Norte, oonde embora sejam áreas coladas, as diferenças socioespaciais são evidentes. Uma parte da cidade não se mistura com a outra, como se não se reconhecessem como parte de um todo, uma cidade única.

A contradição é que, apesar de tanta escassez, a cidade informal entrega para seus habitantes uma dinâmica urbana mais próxima do que busca uma cidade formal. Nas comunidades temos pessoas nas ruas a todo instante, todas e todos se conhecem desde a infância, sabem os nomes dos vizinhos, criam raízes sociais e familiares sólidas. Ou seja, compartilham a vida de maneira muito mais próxima e saudável. É comprovado que criar relações sociais fortes é um dos maiores fatores para ter uma vida saudável e longeva.

Enquanto isso, nas cidades formais, temos grades, pessoas isoladas em seus apartamentos, que não sabem o nome dos vizinhos, quem mal pisam na rua porque tem medo, que utilizam espaços públicos apenas como circulação para deslocamentos entre a casa, o trabalho e espaços de lazer privados.

É urgente que as pessoas, órgãos públicos e inicitativas privadas passem a enxergar elos entre estes mundos para que tenhamos uma cidade mais justa e inclusiva. É evidente que a cidade formal precisa de características inerentes à informal e o oposto também é verdadeiro. Já tivemos muitas oportunidades de quebrar essa separação e desperdiçamos por seguir um modelo raramente questionado, que parece consolidado e, portanto, imutável. Mas não é!

Sabemos, claro, que uma dinâmica social e urbana não se resolve apenas com arquitetura e urbanismo. Mas também sabemos que desenhar o palco onde se desenvolve estas dinâmicas pode estimular comportamentos mais saudáveis e inclusivos, reverberando diretamente no bem estar urbano e social.

E para isso, precisamos nós, arquitetos e urbanistas, passar a desenhar fora do escritório, com a camisa suada, pisando na lama, batendo nas portas, ouvindo as pessoas, assim como precisamos saber buscar atores para construir coletivamente essa nova cidade.

Estamos em busca de um elo arquitetônico/urbanístico perdido, aquele que conecta em vez de separar, que propõe diálogo onde há presunção, que prioriza a escuta em detrimento à fala, que potencializa o que se pretendia esconder e que transforma o que se entendia como imutável. E não descansaremos até materializarmo essa ideia.

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